
UMA ESCOLA COM AS ARTES EMBEBIDAS NAS CULTURAS
TEXTO Rejane Coutinho
FOTOS André Seiti e Letícia Vieira
Para falar das relações entre arte, cultura e educação no contexto brasileiro, precisamos conversar, antes de tudo, sobre o percurso e a atuação da arte-educadora Ana Mae Barbosa, uma das principais referências no campo da arte-educação e que esteve, em 2025, no palco de uma das edições do programa Ocupação Itaú Cultural.
Ana Mae diz que “para conhecer a cultura de um país é preciso conhecer sua arte”, e ela vem lutando para que todas as pessoas possam conhecer tanto as artes de seu país quanto as dos demais países, uma luta para que as artes estejam presentes de forma significativa nas escolas. As artes no plural: desde as praticadas e experimentadas nos territórios de cada pessoa até aquelas presentes nas ruas, divulgadas nos meios de comunicação, expostas em vitrines, pedestais, nos museus, palcos e outros espaços que fazem circular as artes visuais, o teatro, a dança e a música.
Esses são motivos pelos quais é preciso conhecer esta mulher nascida no Rio de Janeiro (RJ), mas que foi criada na cidade do Recife (PE), onde teve a oportunidade de experimentar a vida e a cultura e, por isso, se entende como pernambucana. Foi em Recife, durante sua juventude, que teve o privilégio de ser aluna de Paulo Freire, quando foi impregnada por suas ideias e por seu ideal de educação libertadora. Foi lá também que teve a oportunidade de fazer parte do nascente Movimento Escolinhas de Arte (MEA), nas décadas de 1950 e 1960, movimento que abriu espaço para as expressões artísticas de crianças e jovens em um contexto de educação não formal.
Ana Mae começou a atuar como educadora ao mesmo tempo que constituiu sua família e viveu os conturbados anos da ditadura civil-militar (1964-1985). Por consequência, migrou com a família, primeiro para a nova capital do Brasil, onde sonhou em criar uma Escolinha de Arte na Universidade de Brasília (UnB), projeto abortado pelo estado de exceção vivido na época. A família seguiu para São Paulo (SP) em busca de um espaço seguro para realizar seus projetos de vida. Em 1968, Ana Mae criou, com um grupo de educadoras, a Escolinha de Arte de São Paulo, onde buscou exercer o ideário da educação através da arte, que fundamenta o MEA, que naquela época se espalhava pelo Brasil.
É importante entender que até aquele momento as escolas de educação básica não tinham a obrigatoriedade de oferecer uma disciplina de arte em seus currículos. Isso aconteceu em 1971, com a Lei n o 5.692, que instituiu a obrigatoriedade da atividade de educação artística, com essa nomenclatura. Vale lembrar que estávamos em um período ditatorial e que a imposição dessa obrigatoriedade aconteceu sem planejamento. Quem seriam os professores para assumir a educação artística nas escolas de educação básica de todo o país? Só depois de instituída a obrigatoriedade é que foram criados os cursos de formação de professores dessa disciplina.
Ana Mae, atenta às contradições vividas na época, passou a integrar o então recém-criado curso de educação artística para a formação de professores da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP) e, também, a investir em sua própria formação. Ao longo da década de 1970, ela realizou mestrado e doutorado nos Estados Unidos, pois ainda não haviam cursos de pós-graduação nesse campo no Brasil. As pesquisas que desenvolveu em seu processo de formação foram publicadas em livros e dariam contornos ao campo do ensino de artes no tocante às questões conceituais e a um delineamento histórico desse campo no Brasil.
Assim, nas décadas de 1970 e 1980, viu-se a constituição do extenso campo do que passou a ser conhecido como arte-educação, que inclui tudo o que acontece na interseção desses dois campos, como as práticas de educação não formal com as linguagens artísticas e o ensino de artes nas escolas, um movimento em grande parte provido pelas atuações e pelos estudos de Ana Mae.
A sensação é a de que os muros das escolas estão cada vez mais impenetráveis
Ainda no período de redemocratização, ela compreendeu as dificuldades de professoras e professores nas salas de aula e organizou, em 1980, a Semana de Arte e Ensino na USP, um grande encontro que teve em sua abertura o professor Paulo Freire. Os participantes saíram desse encontro mais fortalecidos e começaram a se reunir em associações para estabelecer trocas e garantir a qualidade do ensino de artes. A ideia de Ana Mae de reunir as pessoas em encontros e congressos passou a ser um método de trabalho e de formação que se ampliou para todo o Brasil, fazendo surgir outras lideranças e culminando na criação da Federação de Arte Educadores do Brasil (Faeb), em 1987. Desde então, a Faeb reúne arte-educadores das várias regiões do território nacional em encontros anuais, realizados em uma cidade diferente a cada edição.
É difícil dizer em qual área Ana Mae mais se destaca e contribui: se no campo político das reuniões e associações de professoras e professores, no campo conceitual da produção de conhecimentos, pesquisas e publicações ou no campo da formação de pessoas para multiplicar e continuar com as lutas por mais arte e cultura na educação. O campo da formação que se alia às pesquisas e produções de conhecimento, teve um ponto fulcral quando ela criou, no início da década de 1980, a primeira linha de pesquisa em ensino e aprendizagem de artes no país, na pós-graduação da ECA/USP. Foi de lá que saíram pesquisadoras e pesquisadores que multiplicaram esse processo em várias universidades e regiões do Brasil.
Se hoje temos em torno de 50 cursos acadêmicos de pós-graduação em artes com linhas de pesquisa em ensino de artes e 15 cursos de mestrado profissional em artes, isso se deve ao pioneirismo de Ana Mae Barbosa, que acaba de receber, no início de 2026, mais um reconhecimento: o 7 o Prêmio Carolina Bori Ciência & Mulher, da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), na categoria “Humanidades”.
Como ponto fecundo na trajetória dessa mulher, é imprescindível destacar uma das suas contribuições conceituais mais relevantes para o campo da arte-educação: a abordagem triangular, que ela sistematizou, publicou e divulgou no início da década de 1990. Trata-se de um constructo teórico-metodológico que fundamenta todo esse campo e parte de três ações básicas: produzimos artes; consumimos artes; e procuramos entender e contextualizar as artes, tanto as que produzimos como as que consumimos. Essas ações permeiam nossas relações com as produções artísticas e culturais, mas na vida cotidiana nem sempre estão interligadas. No âmbito da educação, elas precisam se articular para que os conhecimentos se entrelacem e façam sentido para as pessoas.
Centro Municipal de Educação Infantil Criança Cidadã, Rubiataba (GO). Foto: Letícia Vieira/Fundação Itaú
Vamos tentar compreender: a humanidade sempre produziu linguagens artísticas – imagens, sons, movimentos, representações – e se expressou através delas. Essas produções circulam e são recebidas em processos de recepção, que, para serem percebidos em toda a sua amplitude, precisam ser situados em seus contextos de referência, que podem ser históricos, artísticos, antropológicos ou sociológicos, entre outras esferas de contextualização. Ou seja, quando sabemos como, onde, por quem e por que aquela produção foi feita – e, além disso, podemos experimentar produzir algo levando em conta os nossos próprios contextos –, a experiência de conhecimento se completa.

Ana Mae percebeu as articulações do conhecimento artístico e estético e propôs que o ensino-aprendizagem das artes se organize nesta triangulação: leitura, contextualização, produção. A ordem das ações pode ser definida de acordo com os objetos de conhecimento e com as intenções dos processos e contextos de aprendizagem, lembrando que, para a autora, a contextualização faz a costura entre os saberes, e essa trama se orienta para uma leitura do mundo das artes e da cultura, como preconizava Paulo Freire.
Essa ideia está na base de todas as boas propostas e práticas artísticas na contemporaneidade, assim como propiciou a inclusão da arte como disciplina na educação básica na Lei de Diretrizes e Bases da Educação, de 1996, e fundamenta os atuais documentos curriculares oficiais. Uma ideia que pode ser exercida de formas alargadas e variadas nas janelas de oportunidades que se abrem nas escolas em tempo integral.
Quando perguntei recentemente a Ana Mae como ela poderia situar suas contribuições no contexto do Programa Escola em Tempo Integral, a arte-educadora imediatamente lembrou-se do conceito de Escola Parque de Anísio Teixeira, nas décadas de 1950 e 1960 – que dialogava com o MEA, do qual Teixeira foi, inclusive, um entusiasta –, em que as artes e culturas em geral tinham protagonismo na formação de estudantes críticos e ativos socialmente.
Mas logo em seguida a expressão de Ana Mae ficou turva quando ela falou de análises críticas que tem lido sobre como o Programa Escola em Tempo Integral tem sido desvirtuado. Segundo a arte-educadora, ao invés de permitir que a escola se abra para as comunidades dialogando com as culturas dos estudantes, a ampliação do tempo escolar tem reproduzido um currículo gradeado, com mais horários fixos e obrigações do que espaços de respiro. A sensação é a de que os muros das escolas estão cada vez mais impenetráveis. Precisamos, ao contrário, abrir frestas nos muros escolares para dialogar com as comunidades e seus contextos.
Segundo Ana Mae, no horário expandido a escola poderia propor atividades de pesquisa nas comunidades e paisagens de seu entorno, fazendo uso de registros fotográficos, por exemplo, para desenvolver projetos de intervenção artística. Ela gostaria de ver o espaço extracurricular aberto para experimentações, sugerindo que professoras e professores de diferentes linguagens das artes e de outras disciplinas desenvolvam projetos interdisciplinares. O que Ana Mae deseja é uma escola atenta aos anseios dos estudantes de hoje, uma escola permeada de artes embebidas nas culturas, como pressuposto básico de uma educação integral do ser humano.