
NO BRASIL, ESCOLAS EXTRAPOLAM OS MUROS ESCOLARES EM PROL DA EDUCAÇÃO INTEGRAL
TEXTO Lucas Veloso, do Nonada Jornalismo
FOTOS Desirée Ferreira e Lucas Veloso
Num dia do projeto Alimentação Saudável, da Escola Municipal de Educação Infantil (EMEI) Machado de Assis, em São Paulo (SP), as crianças caminham algumas quadras até a feira do bairro. Muitas nunca tinham ido ali, apesar de morarem perto. Antes da visita, fizeram uma lista de alimentos que queriam experimentar e que não apareciam no cardápio escolar. Na feira, observaram, escolheram produtos e conversaram com feirantes. Depois, prepararam receitas e acompanharam a redução de desperdício. “Quando eles saem em atividades externas, são outras crianças. Ficam mais colaborativos, mais participativos. O vínculo com a escola aumenta”, indica a professora Maria Esméria.
O grupo também caminhou até o parque próprio, espaço desconhecido por parte da turma. A saída serviu para discutir alimentação, exercício e os equipamentos públicos do bairro. Desde 2022, a ida à feira integra o calendário da escola, e a atividade se ampliou para outras turmas e estimulou novas professoras a adotarem práticas semelhantes.
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Pesquisa Percepções sobre as Desigualdades no Brasil
Para Esméria, essa aproximação com o território permite que as crianças identifiquem relações entre o que aprendem na escola e o que vivenciam no cotidiano. Ela conta que a mudança não se restringiu ao conteúdo trabalhado, mas também alterou o comportamento das crianças dentro e fora da sala de aula, revelando o potencial do território como parte do processo educativo, e não como algo “extra”.
Em diferentes regiões do Brasil, outras escolas públicas seguem caminhos semelhantes. Ao incluir os saberes do território como parte do currículo, elas têm redefinido o que entendem por educação integral, reconhecendo que os territórios também produzem conhecimento. São práticas que ligam a sala de aula à roça, ao rio, ao quintal, às ruas do bairro, a terreiros e às memórias construídas pelas comunidades. Em muitos casos, o impulso parte dos próprios estudantes. As experiências mostram como escolas, educadores e territórios se tornam espaços articulados de conhecimento vivo.
O QUE MUDA QUANDO A ESCOLA SAI DOS MUROS
No debate público, a educação integral costuma ser associada à ampliação da jornada escolar. As experiências desenvolvidas em escolas públicas de diferentes regiões do país, no entanto, indicam que a questão central não é apenas o tempo, mas a forma como o conhecimento é construído, como circula pela rotina e como se conecta a experiências reais. Quando o território entra no planejamento pedagógico, seja uma feira, um rio, um quintal, um laboratório ou um coletivo de contadoras de histórias, a escola desloca o centro da aprendizagem, sai da ideia de conteúdo “distante” para uma formação que faz sentido para quem vive ali.
Pró-reitor de ensino no Instituto Federal do Rio Grande do Sul (IFRS), com mais de duas décadas de atuação na educação básica e profissional e experiências em Ensino Médio Integral, Fábio Azambuja Marçal acredita que reconhecer as subjetividades e as diferentes identidades como parte da aprendizagem está diretamente ligado ao enfrentamento das desigualdades e ao papel histórico da escola pública. “A prática de uma educação que reconhece a pessoa na sua inteireza”, afirma, “é um dos fundamentos da formação humana integral.” Para ele, a educação básica precisa considerar dimensões inseparáveis do que forma um sujeito, “elementos de arte, cultura, tecnologia, esportes, saúde, conhecimento científico, acesso ao patrimônio histórico-cultural”. A educação “tem o grande objetivo de nos humanizar”, resume.
Marçal destaca que esse princípio aparece com força em experiências como o Ensino Médio Integrado com Ensino Técnico nos institutos federais, mas não se limita a esse formato. “Sempre que se fala em reconhecer o ser humano em sua inteireza, trata-se dos princípios fundantes da formação humana integral”, afirma. Para ele, falar em educação integral implica reconhecer desigualdades sociais e territoriais e assumir compromisso com o direito à educação em diálogo com as comunidades – e isso depende de estrutura, profissionais qualificados e tempo de planejamento.
A FEIRA, O PRATO E O VÍNCULO
Em São Paulo, o projeto Alimentação Saudável surgiu de um problema percebido em sala e no refeitório: a alta recusa alimentar e o desperdício. “A gente começou a observar que tinha muita recusa das alimentações que eram servidas na escola, tinha muito desperdício, porque eles não queriam nem provar, e aí acabava indo direto para o lixo”, relata a professora Maria Esméria.
A educadora estruturou um percurso pedagógico antes de chegar à rua. Começou com vídeos informativos e rodas de conversa sobre o que é um alimento, por que o corpo precisa de diferentes grupos nutricionais, por que vale ao menos experimentar. Depois vieram atividades manuais e visuais – “Modelamos alguns alimentos de massinha, pintura, colagem”, conta –, além de uma prática que aproxima a alimentação do cotidiano doméstico – “Analisamos papéis de supermercados”. Só então veio a primeira saída, que não ocorreu no improviso: “Eles fizeram uma lista do que queriam comprar, de coisas que não havia no nosso cardápio na escola”.
A ida à feira, portanto, foi parte de um processo em que o território aparece como material pedagógico e como cena de aprendizagem. O retorno à escola foi igualmente parte do projeto. “Depois, na escola, fizemos algumas receitas com as coisas que compramos na feira”, relata a professora.
A mudança mais visível apareceu na forma de servir e no desperdício. Na rotina diária, como explica Esméria, a refeição chega pronta, com porções padronizadas. No projeto, isso foi desmontado: a turma preparou e serviu de um jeito diferente, com escolha. “Nesse dia, o desperdício foi quase zero, porque cada um colocou no prato o que queria.” A professora também notou mudança de atitude após a feira: “Eles tiveram coragem de provar coisas que ainda não tinham comido, a aceitação aumentou, o desperdício diminuiu bastante”.
A iniciativa foi ampliada posteriormente com outro eixo: saúde e movimento. “Estamos falando que, além da alimentação, o corpo necessita de outros elementos para se manter saudável. E um deles é o exercício”, explica. Então veio uma nova saída, para um parque próximo à escola, que parte das crianças não conhecia. A ideia, relata Esméria, era dupla, partindo da prática corporal e do vínculo com um equipamento público do bairro, inclusive como estímulo às famílias: “O objetivo era trazer os alunos e publicar (sobre a visita) nas redes sociais da escola para incentivar o uso desse espaço pelas famílias”.
A professora também observa que a mudança não é apenas alimentar ou corporal; mexe-se com a convivência e a participação. Crianças que têm dificuldade de seguir combinados em sala se comportam de outra forma na rua, no parque, na feira. “É uma experiência diferente para eles”, afirma, e isso se reflete no vínculo com a escola.
“A prática de uma educação que reconhece a pessoa na sua inteireza é um dos fundamentos da formação humana integral”
EDUCAÇÃO INTEGRAL COMO TOTALIDADE
Na Escola Municipal Saint-Hilaire, em Porto Alegre (RS), a professora Maria Gabriela Pires de Souza define a educação integral como organizada pela “totalidade de conhecimentos”. A instituição trabalha com uma lógica de turnos. No período em que os estudantes estão matriculados, eles participam das aulas regulares; no turno inverso, escolhem projetos e atividades como robótica, futsal, jornalismo, clube de ciências, capoeira e o coletivo de contadoras de histórias Luísa Marques, no qual alunas criam e organizam projetos.
A ideia central, afirma a educadora, não é manter estudantes na escola de forma forçada em atividades desconectadas, mas criar propostas com significado. “A intenção da escola é que tenham oportunidade de se identificar com propostas que façam sentido para eles”, resume.
Maria Gabriela relata que a integração ao cotidiano aparece justamente na circulação de aprendizagens – o que se faz nos projetos repercute nas aulas e vice-versa. “Temos retorno dos professores de sala de aula de que os alunos de projeto utilizam práticas e aprendizados em sala”, afirma. E o movimento ocorre no sentido inverso também: “Os professores relatam que, nos encontros, os estudantes relacionam conhecimentos apreendidos em sala de aula ao projeto”.
A escola ainda enfrenta desafios típicos da educação integral na rede pública, como a necessidade de equipe para acompanhar movimentações e descanso dos alunos, além da infraestrutura para que diferentes atividades aconteçam de forma contínua. “A aposta na educação integral em nossa escola exige apoio de recursos humanos e espaços adequados”, comenta Maria Gabriela. Ao longo dos anos, houve investimento na organização do espaço físico, mas a continuidade depende de condições estruturais que nem sempre foram conquistadas. “Ainda precisamos garantir carga horária dos professores para que os projetos continuem acontecendo.”
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Pesquisa Volume de trabalho dos professores dos anos finais do ensino fundamental
Como indicadores de impacto, a professora cita o retorno dos estudantes como principal sinal de importância dos projetos, além de reconhecimentos recebidos pela escola. Ela menciona honrarias e premiações e diz que a instituição foi apontada como referência em formação integral e superação de adversidades. Ao mesmo tempo, indica o que precisa avançar: mais diálogo com as comunidades escolares para compreender as realidades de cada território, mais tempo de planejamento para docentes e mais recursos.
O RIO COMO EIXO DO CURRÍCULO
Na capital de Pernambuco, a professora Karina Luiza estruturou, na Escola Municipal Vila Santa Luzia, o projeto Recife Capibaribe a partir de uma pergunta central: “Que histórias o rio pode contar sobre o desenvolvimento da cidade?”. A questão orientou o percurso pedagógico e transformou o Rio Capibaribe em eixo articulador do currículo, integrando ciência, matemática, tecnologia, arte, história e geografia.
Karina explica que o território, no caso, operou como catalisador em dimensões complementares. “O território atua como o principal catalisador da aprendizagem”, diz; o rio, por sua vez, foi percebido em três frentes: “conexão emocional, laboratório vivo a céu aberto e ancoragem de saberes”.
Na dimensão emocional, a paisagem e a memória local transformaram o conteúdo escolar em algo urgente. “Os alunos passavam pelo rio, percebiam a poluição, mas viam no livro didático e achavam que era algo distante”, relata. Quando a questão ambiental se tornou próxima, veio a mudança de comportamento. “Houve o sentimento de pertencimento, de responsabilidade; isso deixou de ser algo abstrato para ser alguma coisa real.”
O projeto incluiu uma experiência num barco-escola, a qual foi descrita por Karina como ponto de virada, mais do que “aula de campo”: “A saída de campo foi o ponto de virada, o momento de estar no rio, e não apenas vê-lo”. A partir dali, o Capibaribe virou laboratório: “As crianças passaram a coletar dados, fotos, anotações, impressões, como verdadeiras pesquisadoras”. Observaram pontes, analisaram vegetação, mapearam áreas degradadas e pontos críticos. Para a professora, o rio se tornou um laboratório vivo porque a aprendizagem ocorreu “de forma integrada”, articulando disciplinas e métodos.
O processo, segundo ela, foi gradual e intencional. Antes do campo, houve um passo de sensibilização. O Capibaribe era apenas “a paisagem de fundo”. O debate inicial, junto com a escuta de uma música sobre o rio, foi pensado para despertar curiosidade e crítica. Depois, o território se expandiu para dentro da escola; o laboratório chegou à sala de aula e de robótica, onde dados foram analisados e se transformaram em soluções.
Nesse ponto, o projeto deixa claro como se integra ao cotidiano. Ele não termina no barco, mas entra como matemática, tecnologia, pesquisa, produção e comunicação. “Foi feito no laboratório de robótica, onde a gente pôde analisar e transformar esses dados”, diz Karina. Com base nessa análise, nasceu o protótipo: o barco coletor de lixo. “A metodologia trouxe essa questão da mão na massa”, conta a professora, e isso exigiu protagonismo dos estudantes: eles pesquisaram, buscaram informações em casa, no livro didático e nos dados coletados.
No laboratório, tomaram decisões sobre o formato e a funcionalidade do protótipo. A participação deixou de ser apenas responder perguntas. “Cada aluno (contribuiu) com suas habilidades, no desenho, no cálculo, na escrita, na oratória”, cita Karina.
“A saída de campo foi o ponto de virada, o momento de estar no rio, e não apenas vê-lo”
O efeito formativo também foi observado em camadas. A professora descreve três níveis de mudança, a começar por um olhar crítico sobre a cidade, uma vez que os alunos “deixaram de ser observadores passivos” e passaram a questionar ocupação urbana, origem do lixo, relação entre história e problemas atuais. O segundo nível foi socioemocional, pois se desenvolveram a colaboração na construção do protótipo, a organização de uma feira de conhecimentos, o fortalecimento de autonomia, a comunicação e o trabalho em equipe. O terceiro foi identitário, uma “reafirmação da nossa identidade local”. Karina diz que o estudo do movimento Manguebeat e das lendas locais reforçou a identidade cultural: “O sentimento de pertencimento se transformou em responsabilidade”.
Ao falar da escola, a professora descreve seu papel como de mediação e legitimação dos saberes do território. Ela também gera aprendizados para outras escolas, em tom de orientação pedagógica, o que reforça a dimensão curricular do projeto. “O currículo mais potente é o currículo vivo”, pontua. E sugere um método: identificar um elemento central do território que sirva de fio condutor, como uma praça, uma feira, um problema social ou uma lenda. Depois, buscar pela pergunta, e não pela resposta, usar tecnologia para coleta de dados e prototipagem, além de criar trocas com o território. “O papel da escola é mediar e potencializar esses saberes”, conclui.
Escola Municipal Saint-Hilaire, Porto Alegre (RS). Foto: Desirée Ferreira

QUANDO PLANTAR VIRA LOUSA
Em Cruz do Espírito Santo (PB), o professor Leandro Mendes coordena o Quintal Produtivo, um conjunto de ações que reúnem horta escolar orgânica, trilha empreendedora, oficinas de sustentabilidade e a implantação de um sistema de aquaponia. Mendes explica que o nome da iniciativa foi adotado recentemente para dar identidade ao que já vinha sendo desenvolvido há alguns anos.
Desde 2018, mais de 250 estudantes do Ensino Fundamental e Médio participaram dessas atividades em diferentes etapas. O projeto deixou de ser uma ação eventual e passou a ser um espaço pedagógico permanente, que conecta teoria e práticas.
A proposta nasce do contexto rural da comunidade, com tradição agrícola, relação direta das famílias com plantio e manejo, além de recursos hídricos e solo fértil, que favorecem o cultivo de feijão-verde, batata-doce, macaxeira e hortaliças. O Quintal Produtivo parte desse repertório, mas não o substitui. “Observamos como as famílias organizam seus próprios quintais”, afirma o professor, e isso orienta escolhas e aproxima a escola da vida real dos estudantes. “Os alunos ajudam a decidir o que plantar.”
O cotidiano do projeto envolve atividades contínuas, como o preparo de canteiros, compostagem, manejo agroecológico, visitas a propriedades rurais, entrevistas com agricultores familiares e uso de tecnologias sociais. Mendes descreve aprendizados concretos, como responsabilidade, paciência e cuidado ambiental, além de compreensão do valor de produzir alimentos saudáveis.
Ele cita que, quando os estudantes levam para casa alimentos que cultivaram, vínculos afetivos e familiares se fortalecem e a relação com o território ganha outro estatuto, o de memória e valor social, não apenas de “conteúdo escolar”.
As transformações também são observáveis no comportamento: “Estudantes antes tímidos ou pouco participativos ganharam protagonismo”, afirma. “Hoje eles decidem o que plantar, organizam mutirões, realizam registros e apresentam resultados.”
O projeto enfrenta desafios concretos – infraestrutura, ferramentas, insumos, manutenção constante – e lida com isso por caminhos práticos, como reaproveitamento de materiais, mutirões e parcerias locais. Ao integrar o Quintal Produtivo ao currículo, a escola tenta garantir continuidade e sentido à iniciativa.
A seguinte matéria foi produzida entre outubro e dezembro de 2025 e reflete os dados e informações disponíveis à época, considerando o processo editorial da revista.
NONADA A Associação Cultural Nonada Jornalismo é uma organização sem fins lucrativos que articula cultura, jornalismo e educação com o objetivo de fortalecer vozes, saberes e territórios, contribuindo para a valorização da diversidade cultural e para a transformação social no Brasil.
EDUCAÇÃO INTEGRAL NÃO É FORMATO, É RELAÇÃO
Apesar das diferenças de contexto, as experiências acima têm pontos em comum. Em todas, o território se manifesta como produtor de conhecimento e como base para um currículo vivo, no qual o que se aprende está ligado ao que se vive. Em todas elas, o protagonismo estudantil é condição para permanência, vínculo e aprendizagem.
Nesse ponto, a leitura de Fábio Marçal funciona como costura sobre a educação integral – para ele, é o reconhecimento do ser humano em sua inteireza, e isso exige investimento material e compromisso público. “A formação humana integral não é um discurso, mas um princípio pedagógico que precisa de condições para se efetivar. Onde há precariedade, o risco é que projetos virem exceção”, observa.