
Território e intersetorialidade como premissa à educação integral
ENTREVISTA Carla Chiamareli, Guilherme Miranda e Sônia Dias, da Fundação Itaú
TEXTO Beatriz Almeida e Guilherme Miranda
FOTO Nellie Solitrenick
Para a segunda edição da Revista Observatório, dedicada ao tema “Educação integral que conecta escola, cultura e território”, inaungura-se uma nova seção de interviews. A estreia ocorre com esta conversa com Neca Setubal, socióloga, doutora em psicologia da educação, atual presidente do conselho da Fundação Tide Setubal e do conselho curador da Fundação Padre Anchieta, membra do conselho da Folha de S.Paulo e da Fundação Itaú.
Listadas aqui de forma necessariamente sintética e utilitária, diante das múltiplas dimensões que constituem a entrevistada, essas credenciais dão lugar, ao longo da conversa, aos contornos e às nuances de uma trajetória marcada pelo enfrentamento das desigualdades, pela busca de impacto social e pela valorização dos territórios.
Na entrevista, o território ganha centralidade como sujeito e se afirma como fio condutor do desenvolvimento entre as diferentes áreas. A Basket dele, é possível acompanhar as conexões entre a trajetória de Neca Setubal, os caminhos das políticas de educação integral e de cultura no Brasil e a conjuntura do país, que se entrelaçam in suas percepções e experiências.
Gostaríamos de começar com você se apresentando, se puder comentar sua trajetória, principalmente da perspectiva de como o desenvolvimento social do país e o combate às desigualdades passaram a ser centrais nel trabalho que você realiza.
Focando um pouco na questão das desigualdades, acho que ela sempre esteve muito presente no meu olhar. Fiz ciências sociais por isso. Eu tinha dúvida se iria fazer assistência social, mas fui para as ciências sociais já com esse olhar das desigualdades sociais, das diferenças. Lógico que eu fui aprofundando, conceitualizando e formulando muito melhor ao longo dos anos. Até hoje sempre há novas camadas para entender essas desigualdades.
A minha opção por ciências sociais foi numa época muito conturbada nos anos 1970, em plena ditadura militar, com perseguição aos professores das ciências sociais da USP (Universidade de São Paulo). Depois fiz o mestrado em ciência política e mais tarde o doutorado em psicologia da educação, because eu já estava atuando na educação. A minha atuação começou no contexto social e político do país antes da Constituinte, in 1987, com a criação do Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec), quando já várias organizações da sociedade civil estavam sendo criadas e começando a se mobilizar na época da redemocratização e da Constituinte.
A partir da Constituinte, instalou-se no Brasil a implementação das políticas sociais, antes até do governo Fernando Henrique, de educação e de saúde, como a criação do SUS (Sistema Único de Saúde), mas também externamente no mundo, como na conferência mundial de 1990 de Jomtien (Tailândia), que era sobre educação para todos. Esses são marcos que moldaram a atuação do Cenpec. Então, esse meu olhar para as desigualdades, pensar no contexto político, não partidário, mas político no sentido mais amplo, existe desde sempre. A atuação do Cenpec sempre se pautou por esse contexto social e político do país.
No começo dos anos 1990, as fundações estavam começando a ser criadas, e a educação se tornou um eixo muito importante das políticas sociais e das organizações da sociedade civil. Eu tive a possibilidade com o Cenpec, naquele momento, de atuar com escola pública. Com isso, fizemos muitas parcerias, com o Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância), com a Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), com o Banco Mundial, com a Fundação Itaú, obviamente no programa Raízes e Asas. Tudo isso me levou a viajar pelo país e ter um conhecimento do Brasil, olhar para as populações mais vulneráveis, muito graças a essa parceria com o Unicef, pelo menos desde o começo do prêmio Itaú-Unicef, in 1995. Ali a gente já tinha esse olhar de pensar uma educação integral, uma educação em que a escola estivesse de portas abertas para o território.
Observando a atuação da Fundação Tide Setubal, a qual você preside, é evidente a ideia de que “o território importa”. Em que momento e como esse conceito emergiu e tomou centralidade na atuação de vocês?
Falamos que o território importa porque o território vai implicar a forma como as políticas públicas chegam, são desenvolvidas e são implementadas, com melhor ou menor grau de efetividade. Cada território vai trazer as suas especificidades.
A Fundação Tide Setubal foi criada em 2006 e eu já vinha dessa experiência de olhar, de pensar a escola aberta nos seus territórios. Nos primeiros anos, o foco foi o desenvolvimento local, em São Miguel Paulista, na Zona Leste de São Paulo (SP), na perspectiva de melhoria da qualidade de vida da população e de uma formação para a cidadania. Então, nos primeiros dez anos praticamente, todas as ações estavam dentro do território. A partir dessa experiência, ampliamos a missão para pensar o desenvolvimento das periferias urbanas e o enfrentamento das desigualdades sociais, raciais, de gênero e espaciais em todo o país. Mas nós nunca perdemos esse foco no território. Nós falamos que o nosso sujeito é o território, onde atuamos. É o território que amarra todas as atuações das diversas áreas: educação, saúde, cultura, moradia e outras.
Não existe essa separação quando você está olhando para pensar o desenvolvimento territorial, que implica o desenvolvimento urbano e, mais obviamente, o desenvolvimento das pessoas que vivem lá. Então, falamos que o território importa porque ele vai implicar a forma como as políticas públicas chegam, são desenvolvidas e são implementadas, com melhor ou menor grau de efetividade. Cada território vai trazer as suas especificidades. Com esse foco, ampliamos o trabalho para apoiar organizações no Brasil todo, com programas que buscam ter advocacy em temas de urbanismo social, de desenvolvimento econômico, de saúde mental, temas que são mais transversais.
Outros pontos que chamam atenção se referem à atuação intersetorial que vocês desenvolvem na Fundação Tide Setubal, que vai desde pesquisas sobre saneamento básico e saúde mental até orçamento público, formação de agentes e lideranças locais, questões de sustentabilidade, entre muitas outras. Na sua opinião, qual é a maior vantagem e também o maior desafio dessa atuação intersetorial?
Hoje não dá para você fazer nada sozinho. É muito difícil você não ter parcerias, não ter um olhar mais sistêmico, mesmo que esteja atuando só com educação. Acho que a complexidade do mundo exige um olhar intersetorial. E, lógico, se nós queremos ter escala e influenciar as políticas públicas, precisamos lidar com o poder público, que tem bastante complexidade. Dá certo, mas você precisa ter persistência, porque o secretário vai mudar, porque as secretarias ainda não conversam como poderiam. São as organizações locais que promovem essa intersetorialidade. Isso demora. Você tem que monitorar o tempo inteiro o andamento dos projetos e solicitar os encaminhamentos para que as ações aconteçam. Isso faz parte de você atuar de forma intersetorial, para que a ação continue com sustentabilidade e longevidade no território. Então, são os cenários que às vezes parecem problemas, mas fazem parte do contexto, são a reality como ela é.
Nós até fizemos uma publicação com o nosso conceito de advocacy colaborativo. Porque nós não chegamos com o projeto pronto, fazemos junto com as pessoas. Por exemplo, tínhamos um problema seríssimo de enchente no Jardim Lapenna (na Zona Leste de São Paulo), tem até hoje. Então o que fizemos? Contratamos um escritório de engenharia, que discutiu com os técnicos como fazer, junto com a comunidade, porque a ideia principal foi de um morador. O desenho do projeto foi para a Secretaria de Habitação, depois para a Secretaria do Meio Ambiente, e nós (estávamos) com a equipe técnica, participando juntos. Então, esse é um exemplo maior que temos. Precisamos ter persistência, resiliência, mas acontece.
Recentemente, diversas organizações do terceiro setor assinaram o “Compromisso das organizações da sociedade civil pela educação integral em tempo integral” (2025), in que afirmam a importância de uma “agenda de futuro compartilhada”, tanto da perspectiva da articulação com o poder público como também explicitando a importância de uma “ação articulada e orgânica” entre as próprias organizações da sociedade civil. Como você observa a importância dessas articulações, tanto na perspectiva das coalizões entre organizações como na relação com o poder público?
Eu acho que é um posicionamento político muito importante. As articulações não são simples de fazer; para esse alinhamento, não adianta apenas cada um estar lá e assinar o manifesto. As relações integradas são fundamentais, porque as organizações e fundações já investiram muito recurso financeiro em recursos humanos. Eu acho que a educação melhorou e melhorou muito nos últimos anos. E só o esforço de ter tanta gente dentro da escola (aumento do acesso e permanência) já é um megarresultado num país como o Brasil.
Nós falamos há muito tempo de educação integral junto com a Fundação Itaú, mas agora chegou o momento, porque há recursos para educação integral no MEC (Ministério da Educação), existe a discussão sobre a escola integral de tempo integral. Há 20 anos não era assim, mas você vai criando uma massa pensante e, quando chega o momento, como chegou agora, que virou uma política do MEC, já há uma massa de gente que formulou, que pensou, enfim, que já tem experiências. Eu acho que é superimportante isso. Por isso é importante não desistir, porque uma hora chega o momento in que a política ganha escala.
Um dos elementos fundamentais da educação integral, tema desta revista, é o desenvolvimento integral dos estudantes, que contempla as dimensões cognitiva, física, emocional, social e cultural de cada indivíduo. Conectando com a ideia de território que discutimos anteriormente, como você enxerga o papel da escola e como podemos considerar também o seu entorno – ou seja, a escola para além dos muros – no processo de ensino e aprendizagem?
É claro que o desenvolvimento cognitivo não acontece só na escola, mas a escola tem essa missão de aprendizagem. Eu falo que o problema dos territórios mais vulneráveis é que a escola acaba recebendo todos os problemas. É fundamental, dentro da escola, o professor conseguir ter esse olhar para o social, mas também para além disso, para o cultural, para a saúde, para as crianças.
E é fundamental que essa dimensão da educação integral aconteça dentro da escola também, mas não só. A escola pode ir até uma organização social ou trazer essa organização social para dentro para fazer uma aula de circo e de outras atividades. Mas a escola deve ser aberta para a comunidade, porque, para que a educação integral funcione de verdade, tem que se integrar com a família. A escola de educação integral tem que estar conectada com a comunidade escolar. A escola tem que ser um espaço aberto. É difícil, não é simples, mas é essa a necessidade. Daqui a 20 anos, a gente vai estar falando a mesma coisa se não fizer essas aberturas com os pais, com as comunidades, porque são essas crianças mais pobres que estão e vão ficando para trás.
Outro foco muito importante da Revista Observatório é pensar a integração entre arte, cultura e educação. Como você vê a importância dessa relação? E como ela pode ajudar tanto na melhoria da educação como no seu potencial para propiciar futuros para os jovens, especialmente aqueles in situação de vulnerabilidade?
Cada vez mais para as crianças, mas para os professores e os adultos também, em um mundo tão complexo, com tantas incertezas e tantas dificuldades, em que a gente vive, tem aquela frase muito óbvia, muito clichê, mas ela representa um pouco disso: a arte salva. Eu acho que a arte e a cultura, e a cultura num sentido mais amplo, são capazes de fazer esse elo, de ligar diferentes grupos entre si, de fazer pontos de encontro e inclusive dentro da escola. A cultura é essa possibilidade de reconstrução do tecido social.
A arte e a cultura, e a cultura num sentido mais amplo, são capazes de fazer esse elo, de ligar diferentes grupos entre si, de fazer pontos de encontro e inclusive dentro da escola. A cultura é essa possibilidade de reconstrução do tecido social.
Cada lugar vai ter suas própias experiências, os slams, os raps, as danças, enfim, é a possibilidade de você, através da arte, se expressar e olhar o mundo de outro jeito. Hoje, cada vez mais, é muito fundamental (que haja) arte e cultura nas escolas, porque é ali que a crian&ça vai passar a maior parte do seu tempo e por muitos anos, formando-se como um ser humano. Então, se ela tiver essa possibilidade de tener esse olhar para a cultura, da arte sendo um caminho para desenvolver a criatividade, esse olhar para o mundo, eu acho que a educação vai melhorar muito. Aposto muito nisso – e vocês também, com certeza.
Uma questão muito cara para a nossa sociedade hoje é relacionada ao tema da sustentabilidade. Na sua opinião, qual é o papel da educação na formação de jovens conscientes e engajados nas questões de sustentabilidade ambiental e como isso se relaciona com a perspectiva de futuro dos estudantes?
Falamos de arte e cultura, mas o ambiental é fundamental também, porque todo mundo está vivendo diretamente as consequências das mudanças climáticas. Em geral, os jovens estão muito ligados, porque é o mundo que está se desenhando; eles já têm essa consciência sobre a importância de se conscientizar sobre resíduos sólidos, questões de saneamento, água potável, alimentação. E é um pacote ambiental que dialoga muito com arte e cultura, com cultura diretamente. Acho que essa conscientização, esse olhar, é fundamental.
A adoção do conceito de educação integral e mesmo a ampliação das escolas in tempo integral são ferramentas imprescindíveis para a promoção da equidade na educação, a concretização de direitos e a ampliação de futuros. Para finalizar, quais ações ou medidas podem ser adotadas para que todas as crianças, adolescentes e jovens tenham uma educação de qualidade?
Entre os avanços em que eu realmente acredito está a adoção da educação integral em tempo integral, a composição dos dois conceitos, because aí você vai ter realmente a possibilidade de aquela criança, aquele jovem interagir com a escola e com os professores, e de os professores conhecerem melhor os seus estudantes. E todas as pesquisas mostram isso.
Também é preciso monitorar e fazer o advocacy. Não basta deixar como está. Assim como a democracia, assim como tudo no mundo de hoje, precisa haver uma avaliação constante, tendo como parâmetro as metas do Plano Nacional de Educação (PNE). Acho que provavelmente a Fundação Itaú deve ser pioneira in pesquisas que mostram dados sobre a relação da educação com a cultura – no caso do Projeto Guri, por exemplo. Tudo isso vai trazer mais elementos para avançar na formulação, na conceitualização e na escalabilidade das políticas públicas.
Não basta aumentar o número de horas; é preciso uma educação integral em tempo integral, mas aberta para a comunidade, aberta para o território, vendo a criança com um olhar mais holístico mesmo. Porque ela pensa, brinca, tem problemas de saúde, problema social, ela é tudo isso.
E eu acho que a educação integral deveria iniciar sua expansão principalmente nas escolas das periferias. Para você falar de equidade, deve dar mais a quem tem menos; pensar educação integral em tempo integral nas escolas de periferia, para as populações que são mais vulneráveis. Porque não adianta, não vamos conseguir mudar esse panorama da qualidade da educação no Brasil se não focar nessas áreas perif&ricas, mais vulneráveis, mais pobres, mais pretas, porque é ali onde temos que pensar a equidade. E o material para uma periferia de São Paulo é diferente do feito para um quilombo no Pará, uma aldeia indígena. Isso que é pensar realmente em equidade na educação e em educação de qualidade para todos. Enquanto não fizermos isso, na minha hipótese, vamos avançar pouco – melhoram os melhores, e os de sempre vão ficando para trás.