
COMO VITÓRIA (ES) CONSTRÓI UM MODELO QUE CONTRASTA COM A REALIDADE EDUCACIONAL BRASILEIRA.
TEXTO Miranda Perozini, da Gênero e Número
FOTOS Miranda Perozini
Em um país onde muitas escolas lutam para garantir merenda regular, estrutura básica e um quadro completo de professores, a rede municipal de Vitória, capital do Espírito Santo, tem implementado um modelo educacional de referência. Salas temáticas, oficinas de música, projetos de escrita, batalhas de rima, salas de arte e práticas pedagógicas voltadas para a identidade racial são parte da rotina das sete escolas de modalidade 100% em tempo integral da rede.
Com base no “Censo escolar” de 2023, a Gênero e Número mapeou a presença de material pedagógico musical, artístico, étnico e de jogos nas escolas em tempo integral. Em Vitória, três das sete unidades (43%) possuem todos os recursos pedagógicos analisados, proporção alta quando comparada à das demais capitais brasileiras: nacionalmente, a média é de meros 3%.
A Gênero e Número considerou apenas escolas em que todos os seus estudantes estavam matriculados na modalidade de tempo integral. Se um discente estivesse inscrito apenas em um dos turnos, a escola não era contabilizada como integral. Dessa forma, foram registrados sete estabelecimentos na capital capixaba.
É importante estabelecer a diferença entre escolas em tempo integral e o ensino ou a educação integral. O primeiro termo leva em conta apenas o número de horas que crianças e adolescentes passam na instituição de ensino – foi esse o critério usado no levantamento e é a ele que esta reportagem se refere ao falar de escolas em tempo integral.
Já o segundo termo define uma educação que vá além das disciplinas obrigatórias e do currículo tradicional, buscando articular a aprendizagem acadêmica com atividades culturais, esportivas, artísticas, científicas e socioemocionais, entre outras. Esse tipo de educação também pode ocorrer em escolas de apenas um turno, mas a carga horária estendida permite uma incorporação mais completa das atividades.
A Escola Municipal de Ensino Fundamental de Tempo Integral (EMEFTI) Paulo Reglus Neves Freire, no bairro de Inhanguetá, é um dos símbolos desse processo. A comunidade esperou 16 anos pela construção da unidade, localizada em uma região marcada por operações policiais, precariedade urbana e altos índices de vulnerabilidade social. Hoje, segundo a prefeitura, o espaço atende cerca de 400 estudantes do Ensino Fundamental (1º ao 5º ano) em período integral e se tornou uma alternativa concreta ao ciclo de exclusão e violência que atravessa o bairro.
Com 73% dos estudantes negros – porcentagem maior que os 60% de crianças e adolescentes negros da mesma faixa etária no município –, a escola trabalha cultura não como complemento, mas como eixo pedagógico. A orquestra escolar, os grupos de rima, as oficinas de arte e os projetos de tecnologia são utilizados como ferramentas de permanência e pertencimento.
Entre os resultados está o livro Gritos que viram versos, escrito coletivamente pelos estudantes, com poemas que abordam temas como racismo, violência policial e outros desafios da vida nas periferias capixabas e, principalmente, do processo de amadurecimento vivido na adolescência.
INFOGRÁFICO
Capitais com mais escolas integrais com eacesso a recurso culturais
O Relatório Nacional da Semana da Escuta das Adolescências, de maio de 2024, ouviu mais de 2,3 milhões de estudantes do Brasil inteiro. Realizado com o apoio técnico do Itaú Social, o documento teve como intuito identificar as percepções dos alunos sobre aprendizagem, clima e convivência, inovação e participação no ambiente escolar.
Na favela é doideira:
polícia sobe
e mata a gente
de bobeira.
Eles dão desprezo,
tão loucos pra nos ver preso.
Ainda mais se a gente é preto,
nos matam nos becos.
Pra uns, são heróis,
pra outros, vilões.
Mas pra quem mora aqui,
eles não são solução.
Na quebrada,
nada passa despercebido.
Quando a polícia sobe aqui,
a gente perde amigos.
Victor Daniel, estudante do 9º ano da EMEFTI Paulo Reglus Neves Freire
Para 35% dos estudantes do 6º ao 9º ano, atividades em que eles possam mostrar suas habilidades artísticas e culturais são essenciais para melhorar seu interesse e sua participação nos assuntos da escola. A presença da família e a criação de grupos e representações também apareceram na pesquisa como um fator determinante.
O dado colabora para comprovar a eficácia de projetos artísticos como o livro Gritos que viram versos, da EMEFTI Paulo Freire, no qual alunos participaram ativamente do fazer artístico por meio da poesia, escrevendo sobre sua realidade e compartilhando o resultado com a comunidade, uma vez que o material foi editado, diagramado, impresso e distribuído.
“A escola funciona quase como um oásis. Não é apenas um espaço físico, é uma porta que se abre para o futuro. Aqui é o ponto de encontro das famílias e onde as crianças se sentem seguras. Em todos os corredores, em todas as salas, o nosso trabalho é para que elas se sintam vistas”, reforça a diretora da unidade, Lívia Araújo Tonoli.
Ela comenta a importância de investir também no espaço físico, para reforçar ainda mais a ideia de um ambiente inclusivo e que conta com a participação estudantil: “Investimos em pendurar retratos das turmas nas paredes, expor seus trabalhos, instalar espelhos nos banheiros... Pequenas atitudes que reforçam a autoestima das crianças, o senso de pertencimento, a escuta, e as fazem entender que a escola é um lugar de potência, não de repressão”.
O diferencial também está no perfil dos estudantes de Vitória, uma vez que 60% da população de 6 a 14 anos da capital capixaba é negra e 72% dos estudantes matriculados no Ensino Fundamental de tempo integral são negros. Esses números comprovam uma inclusão rara no sistema educacional brasileiro.
Vitória é uma cidade construída majoritariamente sobre morros. Muitas escolas funcionam em terrenos reduzidos, condição que poderia dificultar o ensino integral em termos de estrutura. Para evitar desigualdades internas, a Secretaria de Educação adotou um modelo de adaptação em que as escolas maiores recebem salas temáticas de ciência, arte e música. Já as escolas menores recebem armários temáticos e materiais móveis que permitem o mesmo tipo de atividade.
“O investimento é calculado por aluno, mas acrescido de repasses específicos, conforme o projeto pedagógico de cada unidade. O resultado da nossa adaptação é uma rede que, independentemente do tamanho físico, mantém a proposta pedagógica central”, explica a secretária municipal de Educação, Juliana Rohsner.
PROJETOS CULTURAIS E CONSTRUÇÃO DE IDENTIDADES
Em outro ponto da cidade, a EMEFTI Anacleta Schneider Lucas, no bairro da Fonte Grande, recebeu o projeto Foto Melanina, que produziu retratos afrocentrados e realizou rodas de conversa sobre identidade, estética e representatividade. Os corredores da escola, que também funciona em modalidade 100% em tempo integral e atende alunos do 5º ao 9º ano, se transformaram em uma galeria de imagens das crianças, criando um ambiente de reconhecimento que muitas não encontram fora de lá.

Exposição: Silhuetas do protagonismo - Representatividade e consciência negra
Foto: Miranda Perozin
“O projeto é uma forma de promover a autoestima e tirar esse estigma de relacionar pessoas pretas que vivem em comunidades à pobreza, como se não houvesse potência nessas regiões”, disse a fotógrafa e idealizadora Iaiá Rocha, que usa suas lentes para combater o racismo e incentivar a representatividade e a inclusão de pessoas pretas, principalmente crianças.
Para os professores, quando os estudantes são instruídos a navegar pelo universo cultural, a mudança é evidente: eles passam a se ver com dignidade, beleza e significado, e encontram na escola a base para a construção da autoestima. Um exemplo disso foi um dos projetos voltados para a celebração do Dia da Consciência Negra na EMEFTI Paulo Freire. Segundo a professora de arte e protagonismo da instituição, Leticia Eduarda Lemos, as crianças, que estavam “cansadas de ver o mesmo rosto negro” nas imagens da data comemorativa, protagonizaram suas próprias obras de arte.
“A nossa intenção é que as crianças tenham acesso à arte de todas as formas. Por isso há as salas imersivas, com elementos nas paredes, no teto. Aqui, cada aluno é único e chamado pelo nome. Não existe isso de ‘Ei, psiu’ ou ‘Ei, menino, menina’. Todos são vistos, reconhecidos, ouvidos. As aulas são, na maioria das vezes, direcionadas pelas vivências deles, por ideias que têm acerca de determinado tema”, comenta Leticia.
Corredores da EMEFTI Paulo Freire são decorados com fotos dos próprios alunos, para incentivar o pertencimento.
Foto: Miranda Perozini
Sala de música da EMEFTI Paulo Freire, em Inhanguetá, conta com instrumentos de percussão, corda e sopro. Crianças tem aula de música três vezes na semana. Foto: Miranda Perozini
"A nossa intenção é que as crianças tenham acesso à arte de todas as formas. [...]
Aqui, cada aluno é único e chamado pelo nome. [...] Todos são vistos, reconhecidos, ouvidos”
Tanto na EMEFTI Anacleta Schneider como na EMEFTI Paulo Freire, os professores relatam maior vínculo dos estudantes com a escola, redução de conflitos e aumento do engajamento em projetos coletivos. A combinação entre cultura, identidade e jornada estendida parece reorganizar o modo como as crianças percebem seu próprio futuro.
“Os alunos são muito engajados nas aulas. Veem materiais em casa, ideias na internet e pedem que a gente faça. Trazem elementos da rua para, na escola, criarmos juntos, como é o caso do grafismo, que os próprios alunos pediram para estudar, porque é algo do cotidiano deles. Aqui, um aluno do 6º ano ministrou uma oficina de grafite aos mais novos”, conta a professora de arte da EMEFTI Anacleta Schneider, Renee Carvalho dos Santos.
LIMITAR O ACESSO À ARTE É REPRIMIR FUTUROS POSSÍVES
Vitória vive uma realidade oposta à de Belém do Pará, por exemplo, onde 72% da população de 6 a 14 anos é negra, mas apenas 39% dos estudantes de Ensino Fundamental matriculados em tempo integral também o são Lá, três das sete escolas em modalidade 100% em tempo integral não têm nenhum dos recursos pedagógicos analisados pela pesquisa da Gênero e Número.
A presença de recursos escolares culturais, como sala multiúso, sala de artes e material pedagógico musical, étnico-racial e de jogos, é um dos fatores igualmente determinantes para o acesso dos alunos à cultura.
Nesse quesito, a capital do Espírito Santo se difere do restante do Brasil. Apenas 3% das escolas de tempo integral no país possuem os cinco recursos atribuídos pelo levantamento. No caso das regiões Norte e Nordeste, exceto por Palmas (5%) e Fortaleza (3%), nenhuma das capitais pontua no ranking. Salvador (BA), por exemplo, dispara com metade das escolas analisadas sem nenhuma das infraestruturas citadas. No Norte, é Belém que ocupa essa posição. E Goiânia (GO) é a capital da Região Centro-Oeste que mais possui os recursos analisados, com 2%.
INFOGRÁFICO
Capitais com mais escolas integrais sem acesso a recursos culturais
Os números melhoram na Região Sul: Porto Alegre (RS) é a cidade que tem mais recursos, com 20%, embora Florianópolis (SC) não tenha nenhuma school pública 100% em tempo integral. No Sudeste, Vitória aparece discrepante, destacando-se do cenário nacional – 43% das escolas possuem salas multiúso e de arte e recursos pedagógicos.
Em um índice de 1 a 5, em que cada número representa um dos recursos citados, 77 das 265 escolas mapeadas pela pesquisa no Rio de Janeiro (RJ) têm índice 2, seguidas por 71 escolas com índice 3. Já em São Paulo (SP), são 84 das 282 escolas com índice 2 e 101 com índice 3. Das sete unidades de ensino em tempo integral de Vitória, três gabaritaram a pesquisa, atingindo a marca 5, seguida por duas notas 4 e duas notas 3.
"Quando uma criança se reconhece de maneira positiva na arte, isso promove uma mudança de pensamento e traz maior consciência das suas origens e da sua identidade"
Para compreender por que a ausência de cultura e arte nas escolas brasileiras tem impacto direto no desenvolvimento das crianças, a reportagem conversou com a artista, educadora e pesquisadora da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) Júlia Maria Silva Ramalho. “Quando falamos de crianças e adolescentes, o que há de mais importante no ensino de arte nas escolas é o desenvolvimento da individualidade e do senso de pertencimento cultural”, destaca ela.
A pesquisadora explica que, ao se reconhecerem como parte da cultura, os estudantes compreendem também a possibilidade de escreverem as suas próprias histórias: “Quando uma criança se reconhece de maneira positiva na arte, identificando-se seja com as imagens, seja com os artistas, isso promove uma mudança de pensamento e traz maior consciência das suas origens e da sua identidade. Esse é um processo feito cotidianamente em sala de aula”.
Júlia Maria também conta um pouco da importância de projetos propostos aos alunos da EMEFTI Anacleta Schneider, como os de grafismo. “O ensino de arte mostra, por exemplo, que aquele grafite que o menino vê na rua carrega uma história longa e é símbolo de uma resistência cultural das periferias. Falar de cultura urbana é essencialmente falar de cultura periférica e marginalizada, e é também dar um novo sentido a essas palavras que costumam ser colocadas de maneira negativa”, aponta.
Nas periferias, onde a violência e a instabilidade fazem parte da rotina, a escola se torna o único espaço institucional de acolhimento e criação. “Todos nós somos seres em construção permanente, mas na infância e na adolescência esse processo é muito mais intenso. É um momento de construção de identidade, e, sem acesso à cultura, isso fica muito mais difícil e confuso”, reflete a pesquisadora.
"Cultura não é atividade extra. É conteúdo, é método, é ferramenta pedagógica."
Ela continua: “Sem esse incentivo, percebemos certas características na criança, como baixa autoestima e insegurança. O desenvolvimento social e subjetivo fica limitado. Na vida adulta, isso se manifesta em dificuldade de leitura crítica da realidade, menor autonomia intelectual e, muitas vezes, menor senso de pertencimento social”.
A secretária municipal de Educação Juliana Rohsner afirma que, para sustentar o modelo de ensino atual, a formação dos profissionais é um dos pilares da gestão. “Promovemos formação de professores durante o horário de trabalho, direcionada para cada área, e duas vezes por semana essa formação é coletiva. Nesse processo, passamos por olhares antirracistas, feministas… E fazemos escolhas intencionais de objetos de trabalho – textos, obras de arte, músicas – que seguem um projeto institucional”, explica. “Cultura não é atividade extra. É conteúdo, é método, é ferramenta pedagógica.”
Crianças que participaram do projeto Foto Melanina tiveram seus retratos expostos na EMEFTI Anacleta Schneider, no bairro Fonte Grande. Foto: Miranda Perozini
Esse alinhamento permite que a arte e a cultura sejam incorporadas ao currículo, e não tratadas como evento pontual ou projeto isolado, o que tem levado Vitória a atrair olhares para além das fronteiras nacionais. Em novembro de 2025, representantes de governos e organizações do terceiro setor de Argentina, Chile, Colômbia, México e Peru visitaram algumas das escolas de tempo integral da capital capixaba. A imersão buscou conhecer práticas pedagógicas que se tornaram referência nacional e, agora, internacional, especialmente no campo da alfabetização.

A seguinte matéria foi produzida entre outubro e dezembro de 2025 e reflete os dados e informações disponíveis à época, considerando o processo editorial da revista.
GÊNERO E NÚMERO A Gênero e Número é uma organização que há 10 anos produz, analisa e dissemina dados especializados em gênero, raça e sexualidade em diferentes formatos para apoiar a garantia dos direitos de mulheres, populações negra, indígena e LGBTQIA+.
Para as lideranças estrangeiras, o interesse central era a articulação entre currículo, cultura e formação docente, uma integração ainda rara no Brasil e na América Latina. Durante as visitas, foi possível vivenciar a rotina das unidades que são referência em práticas pedagógicas na Educação Infantil e no Ensino Fundamental. Vitória é a segunda capital do país mais bem posicionada no ranking nacional de alfabetização de crianças de até 7 anos, de acordo com o Ministério da Educação (MEC).
Na contramão do fluxo educacional brasileiro, o caso capixaba funciona como evidência de que desigualdades educacionais não são fruto de fatalidades e podem ser transformadas por meio de políticas públicas e investimentos de longo prazo. Vitória não resolve sozinha os desafios da educação nacional, mas sua experiência demonstra que, quando o Estado chega às periferias não apenas para vigiar, mas para criar, o cotidiano escolar se transforma e, com ele, transforma-se também a vida das crianças.
Em um país onde garantir o básico ainda é desafio diário, a capital capixaba oferece um exemplo raro do que poderia ser o padrão: uma escola capaz de ensinar, proteger, acolher e expandir possibilidades.