
QUANDO A TECNOLOGIA DEVOLVE O SENTIDO DA ESCOLA
TEXTO Emilene Lopes, do Nonada Jornalismo
FOTOS Desirée Oliveira, Gabriehl Oliveira e Jorge César Barbosa Coelho
“Antes eu não sabia nada de como funcionava a impressora 3D. Agora eu já sei certinho.” A fala da aluna Alice Ribeiro, de 11 anos, do 6º ano da Escola Dr. Paulo da Silva Couto, em São Leopoldo (RS), ilustra como estudantes de escolas integrais estão tendo acesso a conhecimentos relacionados à inovação. Na cidade gaúcha, impressoras 3D, bancadas coloridas, computadores e painéis de ferramentas agora integram a nova Sala Criativa da escola, implementada pelo projeto CulturaTech, que cria espaços nos quais a tecnologia se integra à educação.
Num contexto em que o Brasil busca caminhos para implementar a educação integral conforme compromisso assumido na Base Nacional Comum Curricular (BNCC), experiências como essa ainda são exceção. Ao mesmo tempo, apontam possibilidades concretas para ampliar o engajamento dos estudantes e fortalecer o vínculo com a escola.
A distância entre o que preveem os documentos oficiais e o que se realiza no cotidiano escolar é um dos grandes desafios da educação brasileira. Uma pesquisa do educador Josivaldo Barbosa da Silva (2023), mestre em ciências da linguagem pela Universidade Católica de Pernambuco (Unicap), que investigou o que dizem professores da rede pública sobre aprendizagem numa perspectiva interdisciplinar, indica que práticas integradas entre áreas do conhecimento ainda são pouco frequentes.
Segundo o estudo, muitos docentes reconhecem a importância do trabalho interdisciplinar, mas relatam dificuldades para colocá-lo em prática. A formação inicial e continuada, marcada por uma organização disciplinar rígida, aparece como um dos principais entraves. O resultado é a permanência de métodos tradicionais, mesmo diante das novas demandas sociais, tecnológicas e culturais que atravessam a escola.
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APRENDER CRIANDO
Luciana Tondo, coordenadora-geral do CulturaTech, explica que o projeto nasce justamente da tentativa de enfrentar esse descompasso. De forma itinerante, a iniciativa promove cursos de robótica e cultura maker – o “faça você mesmo” – para estudantes da rede pública. Na edição de 2025, foram priorizadas escolas afetadas pelas enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul no ano anterior. Mais de cem instituições se inscreveram, e duas foram selecionadas: a Escola Municipal de Ensino Fundamental (EMEF) Luiza Silvestre de Fraga, em Esteio, e a EMEF Dr. Paulo da Silva Couto, em São Leopoldo.
Ao longo de seis meses, a equipe do projeto acompanhou a implementação da Sala Criativa dentro de cada instituição de ensino, combinando a instalação gradual da infraestrutura tecnológica (impressoras 3D, computadores e materiais para robótica) com formações pedagógicas e oficinas práticas.
Ao final do ciclo, os equipamentos permanecem nas escolas, que passam a contar com um espaço dedicado à criação e à experimentação. Durante esse período de acompanhamento intensivo, estudantes de 8 a 12 anos aprendem noções básicas de lógica, programação e robótica. As oficinas são desenvolvidas com um olhar artístico, em que os alunos são estimulados a realizar as atividades com base em suas histórias e vivências.
Os estudantes deixam de apenas reproduzir conteúdo e passam a se reconhecer como autores
Ao produzir seus próprios objetos, narrativas, jogos ou cenários impressos em 3D, os estudantes deixam de apenas reproduzir conteúdo e passam a se reconhecer como autores. Para muitas crianças, esse é o primeiro contato com esse universo, como mencionado por Alice Ribeiro no início desta reportagem.
Para a implementação do CulturaTech, foram selecionados monitores com experiências nas áreas de arte, educação e tecnologia, responsáveis por atuar diretamente nas Salas Criativas junto com as crianças. Esses profissionais passam por uma formação continuada que envolve também os professores das escolas, com encontros presenciais e aulas on-line.
“Não faz sentido entregar equipamentos sem que haja um processo pedagógico junto”, afirma Luciana. A equipe acompanha os encontros e constrói, coletivamente, formas de integrar a Sala Criativa ao projeto político-pedagógico da instituição. Ao final do ciclo, uma mostra tecnológica e cultural apresenta as criações para as famílias e a comunidade escolar.
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TECNOLOGIA COMO PONTE PARA CONSTRUIR VÍNCULOS
Nesse contexto, a tecnologia assume também um significado que vai além da inovação: torna-se ferramenta de reconstrução subjetiva e de criação de vínculos. Segundo Luciana, relatos das famílias indicam mudanças perceptíveis no cotidiano das crianças. “Os familiares contam que elas estão mais criativas, mais comunicativas em casa. A gente tentou criar uma comunicação com elas para entender como isso se refletia fora da escola”, explica a coordenadora do CulturaTech.
Para Luciana, esse movimento passa também pela dimensão afetiva do projeto. “Muitas vezes a tecnologia é vista como um lugar frio, distante, e a gente quis justamente provocar este choque: a tecnologia com a arte, com pessoas que vêm da cultura, criando possibilidade de encontro”, afirma.
Diferentemente das salas de aula tradicionais, organizadas in fileiras silenciosas, a Sala Criativa é barulhenta – mas um barulho de negociação, tentativa, erro e descoberta. O CulturaTech se baseia na cultura maker, em que o erro não é penalizado, mas compreendido como parte do processo. Essa lógica nem sempre é bem recebida: professores mais ligados a modelos tradicionais estranham o ambiente em que crianças conversam, sentam no chão e se movimentam livremente.
A resistência relatada dialoga com os achados da pesquisa de Josivaldo Barbosa da Silva. O estudo mostra que muitos docentes ainda associam aprendizagem à disciplina rígida, ao silêncio e à centralidade da exposição oral do professor. Práticas colaborativas e experimentais, embora previstas nas diretrizes educacionais, continuam sendo vistas com desconfiança.
Segundo Luciana, o foco não está em “treinar” professores para operar equipamentos, mas em convidá-los a experimentar outras formas de ensinar e aprender, explorando como a tecnologia pode dialogar com suas próprias disciplinas. A equipe do projeto promove momentos de troca entre professores e monitores, acompanhamento das atividades e incentivo para que docentes ocupem a Sala Criativa junto com suas turmas.
Aos poucos, a “bagunça” e o barulho se justificam pelos resultados. “Hoje a gente consegue trazer isso como um dado real: essas crianças estão muito mais protagonistas, expondo seu ponto de vista e sua criação”, conclui a coordenadora.
PROFESSORES ALIADOS DAS MUDANÇAS
Formado em letras, o professor Jorge Cesar Barboza Coelho já pesquisava inteligência artificial aplicada à educação desde o início dos anos 2000. Para ele, o CulturaTech dialoga diretamente com essa trajetória. “É um projeto que parte da cultura, da tecnologia, da criatividade. Isso combina com tudo o que eu acredito sobre educação”, diz. Atuando do 6º a o 9º ano, o professor defende metodologias mais abertas e personalizadas: “O mundo mudou, mas a escola ainda está muito presa a métodos que não conversam com a realidade dos alunos”.
Antes mesmo da chegada da Sala Criativa, Jorge já utilizava impressoras 3D em atividades de linguagem e literatura. A proposta era tornar o aprendizado mais concreto e sensível. “Quando o aluno pode tocar, construir cenários, criar personagens e contar histórias a partir disso, o envolvimento muda completamente”, explica. Segundo ele, práticas que tradicionalmente levariam anos para consolidar conteúdos passaram a acontecer em semanas.
A experiência de Jorge dialoga com os estudos da pesquisadora Telma Ferraz Leal, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), que defende que a formação de leitores passa pela construção de sentido e pela inserção da leitura em práticas sociais significativas. Ao criar um cenário ou um objecto impresso em 3D, o aluno não apenas lê o texto, mas também participa ativamente de sua construção simbólica.
A aluna Débora Marques da Silva gosta tanto da Sala Criativa que a frequenta no contraturno para auxiliar estudantes mais novos. “A impressora 3D é o que eles mais gostam. Eles chegam correndo, ficam olhando, espiando enquanto ela está funcionando”, relata.
Para Débora, o aprendizado também foi pessoal. “Hoje eu já sei mexer na impressora 3D, faço chaveiro, uso caneta 3D. Antes nem sabia que essas coisas existiam. Agora consigo ajudar os outros.” Ao ocupar esse lugar de referência técnica e afetiva, ela deixa de ser apenas estudante para se tornar parte ativa da construção coletiva do conhecimento.
Para o professor Jorge, a maior inovação não está nos equipamentos, mas na forma como eles são utilizados. “A maior tecnologia humana é a criatividade”, afirma. “Quando a escola se abre para escutar seus alunos e construir a partir do que eles já trazem, o aprendizado acontece de forma muito mais potente.”
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APRENDER FAZENDO
Se no Rio Grande do Sul a tecnologia ajudou a recuperar a capacidade de sonhar em um território marcado pela enchente, no Nordeste ela foi usada para enfrentar outro desafio: a perda de sentido da escola. Na zona rural de Bacabal, no Maranhão, o professor Antonio de Souza Silva percebeu, em 2024, que seus alunos do 6º ao 9º ano estavam desmotivados e com dificuldades, especialmente em matemática.
O desânimo tinha múltiplas causas: dificuldades financeiras, problemas familiares e uma relação histórica com um ensino excessivamente abstrato, pouco conectado à vida cotidiana. Diante desse cenário, Antonio decidiu agir utilizando três frentes: robótica, matemática e sustentabilidade.
Sem recursos para kits caros, o professor lançou mão do que estava disponível na própria comunidade: garrafas PET, papelão, fios descartados e motores de brinquedos quebrados passaram a compor o projeto Robótica com Materiais Recicláveis no Campo da Matemática Prática. “Levamos o projeto para dentro da sala de aula. Hoje, minhas aulas são mais práticas, participativas e construtivas”, conta Antonio.
O alcance se ampliou rapidamente. De um grupo inicial de cerca de 25 alunos, o projeto passou a envolver entre 70 e 80 estudantes. A matemática deixou de ser apenas um conteúdo no quadro para se tornar uma experiência concreta: construir um braço hidráulico exigia compreender proporções e forças; fazer um carrinho se mover implicava raciocínio lógico e resolução de problemas.
Mais do que resultados técnicos, os efeitos apareceram no comportamento e na autonomia dos estudantes. “Quando o aluno liga o conteúdo matemático a uma prática construtiva, algo que ele mesmo construiu, ele aprende mais fácil e mais rápido”, afirma o professor. O processo é marcado por tentativa, erro, frustração e recomeço, parte central da aprendizagem. “Eles sabem falar das dificuldades, das decisões que tomaram, do que deu errado e do que deu certo”, conta Antonio.
O foco não está em “treinar” professores para operar equipamentos, mas em convidá-los a experimentar outras formas de ensinar e aprender
IMPACTOS PARA ALÉM DA MATEMÁTICA
Os impactos se estenderam para além da matemática: professores de outras áreas perceberam mudanças na postura dos estudantes, inclusive em relação à leitura e à escrita. A robótica passou a funcionar como porta de entrada para o interesse por outros conhecimentos, em um movimento coletivo que envolveu docentes, direção, equipe pedagógica e funcionários da escola.
Em 2024, pela primeira vez, a instituição zerou seu índice de reprovação. No mesmo período, o projeto foi selecionado pelo “Edital matemática nos anos finais do Ensino Fundamental (6º ao 9º ano)”, do Itaú Social. Na ocasião, foram contemplados oito projetos com apoio para implementação ao longo de 2025. A repercussão trouxe novos recursos: a escola passou a contar com uma sala de robótica equipada, computadores, tablets e kits tecnológicos, sem abandonar, no entanto, o eixo da sustentabilidade.
Os horizontes dos alunos também se ampliaram fisicamente. Estudantes da zona rural de Bacabal participaram da Mostra Nacional de Robótica, em Goiânia (GO), e, posteriormente, levaram dois projetos ao Espírito Santo, onde foram reconhecidos entre os melhores da edição de 2025. “Professor, se não fosse a robótica, a gente não teria conhecido outros estados, outras culturas”, relataram alguns alunos a Antonio.
A seguinte matéria foi produzida entre outubro e dezembro de 2025 e reflete os dados e informações disponíveis à época, considerando o processo editorial da revista.
NONADA A Associação Cultural Nonada Jornalismo é uma organização sem fins lucrativos que articula cultura, jornalismo e educação com o objetivo de fortalecer vozes, saberes e territórios, contribuindo para a valorização da diversidade cultural e para a transformação social no Brasil.
Para o educador, o sentido mais profundo do projeto está na formação humana. “A construção do robô é um ensaio da realidade. Na vida, a gente passa por muitos problemas e precisa tomar decisões. Eles veem as dificuldades, tentam, erram, acertam. E acabam sendo autores da sua própria história.”
Em contextos marcados por desigualdades históricas, o que se revela é que aprender só acontece quando faz sentido para quem aprende. Seja imprimindo um anel em 3D ou montando um robô com papelão, os estudantes deixam de ser espectadores do currículo para se tornarem autores do próprio percurso. Esse é, justamente, um dos caminhos pelos quais a educação integral pode deixar de ser promessa para começar, enfim, a existir.