Arquivo pessoal
Notícias

Escola é um terreno onde florescem leitores

Semente plantada na biblioteca escolar muda trajetória profissional de Osmar Weyh, que hoje dedica seu tempo a falar de literatura para as crianças


O futuro profissional de Osmar Weyh foi semeado ainda na infância, quando estava na biblioteca da escola lendo obras de ficção científica enquanto seus colegas estavam no pátio. Ele lembra que, ao buscar por títulos mais desafiadores, a responsável pela biblioteca quis ajudá-lo e compartilhou um livro que marcou a sua memória. Era “Cristine”, do Stephen King, um livro grande, de capa vermelha: “Foi o primeiro livro adulto que li na minha vida”, lembra Weyh. 

Formado em biblioteconomia, ele ingressou na rede municipal de Educação de Esteio (RS), região metropolitana de Porto Alegre. Desde então, mantém uma rotina de estudo para aumentar seu repertório acadêmico, com participação em palestras e cursos, como o Infância e Leituras, da Escola Fundação Itaú.

O que ocorreu na trajetória de Weyh é algo frequente. A 6ª edição da pesquisa Retratos da Leitura, realizada pelo Instituto Pró-Livro em parceria com a Fundação Itaú, mostra que os professores são o segundo grupo que mais influencia o gosto pela leitura, citados por 8% dos entrevistados. O índice fica atrás apenas da mãe ou de uma responsável do sexo feminino, mencionada por 9% das respostas. Além disso, 46% dos leitores afirmaram que começaram a se interessar por literatura a partir de indicações feitas na escola ou por docentes.

“A biblioteca da escola é barulhenta, um lugar que tem vida” 

Por coincidência, o autor que inspirou sua futura trajetória profissional é o mesmo responsável por obras que deram origem a filmes de grande sucesso, como “O Iluminado”, “It – A Coisa”, “Um Sonho de Liberdade” e “À Espera de um Milagre”. Essa forte conexão entre literatura e produções audiovisuais, tão presente na obra de Stephen King, também orienta parte de sua atuação na biblioteca escolar, aproximando os estudantes dos livros por meio de referências que dialogam com o universo do cinema e das séries.

“Como despertar o interesse de crianças acostumadas ao celular por um livro, que é algo estático, fixo? Por isso, costumo tirar os livros das estantes e expô-los na entrada da biblioteca, especialmente aqueles que têm relação com séries”, conta Weyh, que complementa: “Uma determinada obra pode ser adequada para um público, mas é preciso conhecer esse público para saber qual livro indicar. Esse ‘casamento’ só dá certo quando você domina tanto o conteúdo das obras quanto o perfil das pessoas com quem está trabalhando”.

{"baseBlockId":1773758469364,"cols_config":"4/8","has_gap":"1"}

A atuação do biblioteconomista envolve organizar o acervo e aproximar as crianças da literatura. Para alcançar esse objetivo, Weyh realiza mediações de leitura tanto na biblioteca quanto na sala de aula. Além disso, o espaço permanece aberto durante o recreio, funcionando também como um ponto de encontro entre os estudantes.

Imagem mostra o bibliotecário Osmar arrumando os livros na prateleira. Ao lado, próximo dele, está a mesa de trabalho com dezenas de livros em cima.
Foto do Osmar na biblioteca da Osmar (imagem: Arquivo pessoal)

Diferentemente de ser apenas uma sala de leitura, a biblioteca da escola é “barulhenta”, explica Osmar. “Alguns gostam de jogos de tabuleiro, de ‘Uno’, outros preferem ficar apenas lendo os livros”. Nesse ambiente, o papel de Weyh é auxiliar os estudantes, orientar as brincadeiras e indicar livros conforme o interesse de cada um. “Por isso, é preciso conhecer o público”.

A sensibilidade com as crianças motivou Weyh a conseguir transporte para levá-las para a Feira do Livro de Porto Alegre. Apesar de os municípios serem próximos, a maioria dos estudantes não conhecia a capital do estado. Além dessa experiência, o evento cativou com atividades interativas, mediações de leitura e, principalmente, por terem a oportunidade de conhecer os autores dos livros que eles tiveram contato durante as atividades escolares, algo que emocionou as crianças e os escritores.

Na opinião de Weyh, os avanços tecnológicos ampliam significativamente as possibilidades de as crianças se interessarem pela literatura. “Hoje, já existem ferramentas de inteligência artificial capazes, por exemplo, de simular que o autor narre sua própria obra ou explique sua história”, afirma. No entanto, a limitação de acesso a recursos digitais na escola ainda impede que experiências desse tipo sejam realizadas. Como alternativa, ele recorre a projeções em sala de aula e à utilização de produções audiovisuais para enriquecer a mediação de leitura com as crianças.

“A biblioteconomia está inserida na ciência da informação. Hoje, se o bibliotecário não tiver conhecimento de tecnologia, estará obsoleto”

Mesmo com apenas três anos de atuação na escola, Weyh já deixou marcas importantes na trajetória dos estudantes do município. Isso se evidencia quando as próprias crianças passam a compartilhar, de forma autônoma, suas descobertas literárias, ou quando comentam um filme ou série baseado em um livro, ou quando lembram das atividades e brincadeiras vivenciadas na biblioteca.

Luta contra as chuvas
Um dos desafios profissionais marcantes para Weyh ocorreu na Escola Municipal de Educação Básica Luiza Fraga, que foi duramente afetada durante as fortes chuvas que acometeram todo o estado do Rio Grande do Sul: “o volume de água batia no teto”, lembra. Pouco tempo depois, em 2024, a unidade passou por um incêndio que danificou parte da estrutura da instituição, comprometendo o restante do acervo literário.

Durante quase duas semanas, Weyh e outros colegas mobilizaram doações de livros e de estantes para dar vida à nova biblioteca da escola. Foi a partir desse episódio que ele confirmou uma percepção já concebida na ocasião das enchentes: “Geralmente, os livros doados são de obras que não servem às pessoas. Quando chegam na biblioteca da escola, essas mesmas obras que não servem aos antigos donos, também não servirão às crianças, pois elas querem literatura mais atual, quadrinhos, animes”.

Na visão de Weyh, muitos doadores enxergam a biblioteca como um depósito de livros ou apenas um acervo. “A biblioteca é um ambiente de literatura, onde a pessoa vai para ler um livro; não é um lugar para guardar livros didáticos ou equipamentos. Não é um espaço sombrio, mas sim de luz, onde a pessoa vai para se sentir viva”.

Escola Fundação Itaú
O curso Infâncias e Leituras, realizado por Weyh, está disponível gratuitamente na Escola Fundação Itaú. A formação incentiva práticas de leitura do adulto para e com a criança como oportunidade de fortalecimento dos vínculos e da participação ativa na educação desde a primeira infância.

A plataforma oferece mais de 140 cursos autoformativos, certificados e gratuitos de arte, cultura e educação. Em um ano de existência, a plataforma recebeu quase 100 mil inscrições nas formações e emitiu mais de 24 mil certificados de conclusão.

Compartilhe