
Cineasta acreano mostra a potência do audiovisual da Amazônia
Com 40 anos dedicados ao cinema, Silvio Margarido revela os desafios e a potência artística da cultura do Acre
Mesmo distante do centro audiovisual do país, o produtor, roteirista e diretor Silvio Margarido, de Rio Branco (AC), optou por dedicar quatro décadas ao cinema. Ao longo da carreira, escreveu, dirigiu e fotografou dezenas de documentários e filmes de ficção com o objetivo de preservar a memória, a cultura e as histórias da Amazônia.
A trajetória de Silvio reforça que outras regiões fora do eixo Rio-São Paulo têm produções potentes e relevantes para o audiovisual brasileiro. Um dos exemplos de riqueza cultural apontado pelo cineasta é a formação do povo acreano, marcada pela presença indígena, pela luta dos seringueiros, pela ocupação de famílias nordestinas e pelos diferentes movimentos sociais presentes na região.
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Esse encontro permitiu que o Acre tivesse uma vida cultural bastante ativa, com grupos de teatro, festivais e filmes independentes. “Os anos de 1970 a 1990 foi marcado por intensa produção artística, em que a população se reconheceu em obras audiovisuais criadas pelos próprios moradores. Foi nesse período que os acreanos se deram conta da sua origem indígena e da relevância da luta dos seringueiros para o território”, conta Silvio.
O cineasta fez parte desse movimento, contribuindo com a realização de documentários e curtas sobre a população do território. Alguns deles foram o “Mergulho”, que mostra a relação dos moradores da capital com o rio Acre, e o “Etnozoneamento - Acre”, que acompanha os profissionais da Secretaria do Estado do Meio Ambiente no contato com os povos originários, além de outros registros.
Alguns dos filmes dirigidos por Silvio contaram com apoio de editais públicos. Segundo ele, os investimentos mais recentes ajudaram a democratizar o acesso aos recursos culturais. “Acho que o audiovisual brasileiro está passando por algumas mudanças importantes, como a Lei Paulo Gustavo e a Política Nacional Aldir Blanc, que representam um avanço na descentralização da produção artística brasileira.”
Apesar do interesse pela sétima arte, quem deseja contar novas histórias no Acre ainda enfrenta dificuldades para se capacitar. “A forma como aprendi foi bastante colaborativa. Nosso grupo se dividia nas tarefas da gravação e direção. Eu escrevia, produzia, dirigia e operava a câmera. Como os recursos eram limitados, tínhamos que economizar e fazer por conta própria”, lembra Silvio.
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A curiosidade por aprender é algo que Silvio carrega mesmo após décadas de experiência. Neste ano, concluiu o curso “Audiovisual no Brasil: Governança e Ecossistema”, oferecido gratuitamente pela Escola Fundação Itaú. A decisão de se inscrever na formação, segundo ele, ocorreu justamente por querer aproveitar todas as oportunidades possíveis para se qualificar profissionalmente.
Trajetória profissional
Antes de migrar totalmente para o cinema, Silvio trabalhava na administração pública e dividia seu tempo entre música, se apresentando à noite nos bares e em festivais, e teatro, integrando o Grupo Semente, ligado às comunidades eclesiais de base.
Sua estreia no audiovisual ocorreu na década de 80 com o “Super 8”, uma iniciativa do antigo Centro de Pesquisa e Criatividade do Teatro Horta. Nesse grupo, Silvio e seus colegas puderam tirar do papel diversas experiências criativas, que iam desde documentários até obras de ficção. Desde então, com mais de 40 anos de estrada, segue produzindo filmes e influenciando uma nova geração de acreanos pelo cinema.